sexta-feira, 9 de outubro de 2026

Conservar ou Evoluir?

 

Estive em conversa com um amigo que se considera conservador. Pensei no poder dessa palavra e postura. O que significa conservar? Dando um Google rápido encontrei: “Conservar significa manter algo em bom estado, evitar que se estrague, deteriorasse ou acabe, e proteger sua integridade ao longo do tempo.” Ao entrar em contato com esse significado, soltei um suspiro de lamento ao pensar no uso dessa palavra por parte da política brasileira e mundial. Afinal o que querem eles conservar?

Assim, comecei a pensar e analisar. Segundo a psicanálise, o estado de maior conforto experimentado pelo corpo (carne) é justamente quando ainda se é um feto em gestação no ventre da pessoa que gesta. Bem, lá parece não faltar nada, não precisa trabalhar, o alimento vem até o feto literalmente mastigado e digerido, é quentinho e protegido. Imagine o paradoxo: Se é tão confortável, para que nascer? Não seria mais viável conservar essa posição? Em contrapartida, se não é colocado para fora pela via do parto, não nasce um sujeito. E o que aguarda esse sujeito é uma vida de constante evolução. Sabe Pokémon? Pois bem, precisa-se aprender a solicitar o que se quer, a andar em meio a tropeços e quedas, a entender que o mundo não gira ao seu redor. Depois vem o ambiente escolar, o trabalho, os amores românticos, a construção de uma vida minimamente autônoma e, entre tantas outras etapas, uma coisa não se pode negar: todas elas envolvem angústias, sendo que todas as angústias levam a uma evolução subjetiva. Afinal, ninguém quer um Charmander inofensivo, mas um Charizard brutal. A metáfora que me interessa aqui não é a de um retorno literal ao ventre, mas a da permanência em uma posição de proteção na qual não precisamos enfrentar as exigências e as incertezas que acompanham a vida.

 



Em conclusão, evoluir envolve angústia. Porém, deve haver alguma saudade natural daquele lugar de feto. Até porque, lá não existiam as angústias de ser sujeito, e, convenhamos, na maioria das vezes e por um grande número de pessoas, angústia é vista como sofrimento.

Voltando à ideia para o momento político em que estamos: grande parte do grupo dos conservadores parece enxergar a vida solicitando evolução e, sabendo que evolução envolve angústia, prefere voltar a um estado fetal onde não existe angústia. Dá até para aceitar a lógica aqui presente e passar um pano, para eles, de leve, é claro. Vamos concordar que o Charmander possui seus fãs. Mas, o pequeno grupo que completa a equipe dos conservadores, de conservadores não tem nada. E eles são cruéis nesse sentido. Aproveitam daquele sofrimento vinculado às angústias do grupo maior e o manipula em seu favor. Aqui o que eles querem conservar é algo diferente e muito mais cruel.

Vamos aos fatos: todo mundo estudou, em seu tempo escolar, que quem se mantém no poder era quem tinha mais força: exército mais forte, armas mais fortes, persuasão mais forte. Ou seja, dominavam pela força o restante da população, se não pela guerra, pela persuasão. E quem dominava o exército, as armas ou a persuasão? Uma pessoa (rei, imperador, ou alguém equivalente) e o seu pequeno grupo (aqueles que faziam parte da monarquia e se beneficiavam dela). Hoje não temos mais no Brasil reis e monarquia. Todavia, temos aqueles que desde aquela época estão no poder, não mais como reis, mas como os super ricos. E é justamente aqui que entra a crueldade.

O que eles querem conservar são o dinheiro que possuem e o poder que vem dessa riqueza. Já parou para se perguntar quem foi que decidiu que aquela grande fazenda daquela família tradicional de sua cidade pertence a ela? Com certeza você já ouviu histórias de antepassados que invadiram terras, mataram ou expulsaram quem ali vivia e passaram a dizer, essa terra é minha! Quem decidiu, decidiu na força, na arma, na violência.

Não quero dizer que a mesma pessoa que expulsou quem vivia naquela terra passou a terra para os seus filhos e netos e assim por diante, e a mantém até hoje. Pode até ser que mantenha. Quero sim dizer que a riqueza produzida por aquela terra permanece nas mãos desse pequeno grupo até hoje.

Mas, para a nossa alegria, uma coisa evoluiu: os direitos sociais! Hoje temos saúde gratuita, leis que protegem o trabalhador, proteção financeira para idosos e pessoas com deficiência e tantos outros. Procuramos dar igualdade de acesso à educação a todos aqueles que antigamente eram privados desse privilégio. Procuramos estabelecer a ideia de que toda a forma de amor é válida, com tantas procuras de evolução, vamos aprendendo a andar, assim como o bebê no início do texto.

Mas sabe quem não quer que a população em sua maioria ande com as próprias pernas? Pois é, aquele pequeno grupo que tem o poder em suas mãos. Ou seja, eles querem CONSERVAR o poder só para eles.

Para entender esse processo de conservar, vamos continuar pensando no bebê que está aprendendo a andar? É claro que no processo de aprendizagem ele irá ter medo, cair, se machucar e procurar alguém que o socorra. E, usando uma máscara de benfeitor, vêm aqueles que querem conservar o poder em suas mãos e dizem: “Está vendo! Não mandei andar! Ande que cairá. Continue andando para longe de mim, que irá se perder!” Diante do medo dos primeiros passos, é justificável buscar alguém que o proteja, vemos isso nos bebês cotidianamente. Mas um bom responsável sabe que não pode conservar o bebê naquele lugar. Ele precisa aprender a seguir para além daquele que o cuida. Então, esse ser cuidador se apressa para facilitar esse processo, compra andador, coloca sapatinho, dá a mão, até deixa cair de vez em quando. Mas fica presente até aquele que está aprendendo a andar, conclua a sua tarefa e siga por conta própria. Ele não livra o bebê da angústia e, sim, contribui para que com angústia e medo a criança siga!

Chega de metáforas, vamos ver como isso funciona na prática.

Na prática, vemos aqueles que estão no poder alimentando o medo das pessoas para que eles não ousem ir atrás de seus direitos. Na política, essa lógica aparece quando o medo deixa de ser algo a ser acolhido e passa a ser um instrumento de controle. Em vez de ajudar as pessoas a enfrentar as incertezas implicadas na conquista de direitos, determinados discursos apresentam qualquer mudança como uma ameaça. Como? Partamos da ideia de como o discurso religioso é usado para demonizar aqueles que ousam questionar o poder. Até amar se tornou do demônio. Se alguém propuser ideias como “as mulheres têm que ter os seus direitos garantidos, nenhum a menos, não podendo ser submissas à vontade dos homens”, é do demônio. Se algum padre católico advertir a população sobre o cuidado com os mais pobres e vulneráveis, é ridicularizado e chamado de louco esquerdista. Se existir algum movimento que sugira melhor acesso à habitação, “cuidado, esse movimento é perigoso!”. Percebamos que tudo o que é proposto para a sociedade evoluir, ofertando direitos que garantam o mínimo de igualdade para toda a população, é propagado o ódio contra aquele movimento e contra quem fala do movimento de direitos iguais.

Um exemplo clássico: bolsa família. Existem muitos ataques contra os beneficiários do programa bolsa família e contra essa política pública de distribuição de renda. Mas, ao mesmo tempo, não vemos os mesmos ataques, com o mesmo ódio, aos grandes empresários que sonegam impostos. É aqui que vem a pergunta: Se você tem raiva do programa bolsa família e de quem o recebe, mas não tem raiva, na mesma medida, dos grandes empresários que sonegam impostos, sinto lhe informar, você foi capturado por um discurso que te colocou uma viseira de burro para olhar apenas uma coisa e não se irritar com o que de fato é ruim para o Brasil. Até por que, a despesa pública do programa Bolsa Família para os cofres federais em 2025 foi de 158 bilhões. Já o rombo das Americanas aos cofres públicos foi de 43 bilhões, o do Banco Máster foi de outros 60 bilhões. O dono da Havan deve de impostos e INSS aproximadamente 168 milhões. Sabe qual a diferença? O bolsa família divide legalmente todos os 158 bilhoes em mais de 18 milhões de famílias. Já os outros casos citados ficam na mão de apenas uma família. Qual de fato é o mais revoltante?

Sei que alguns leitores podem discordar do que estará exposto a seguir, mas não tenho medo de dizer que, é nessa medida que demonizaram a pessoa de Luiz Inácio Lula da Silva, uma vez que ele olhou para a população, tratada como bebê incapaz e disse, vamos fazer com que esse povo tenha o direito de andar. Contudo aqueles que já usufruíam desse direito começam a perceber que tem mais gente andando no caminho. Não querem dividir, então, qual a saída? Usar o plano de demonizar também o Lula e disseminar o antipetismo. Resultado: aqueles que se beneficiaram ou se beneficiariam do direito, se levantam contra ele. Quem está no poder usa justamente o medo presente na população de onde a evolução pode levar, (pois na fantasia geral, sair de um lugar confortável para encarar um desconhecido pode sim causar receios), e assim os ricos e poderosos usam essa estratégia como arma para manipular e persuadir.

É possível que surjam perguntas do tipo: mas como tais poderosos conseguem manipular tão facilmente grande parte da população? Além de saber persuadir usando de instrumentos que atingem justamente as vulnerabilidades psíquicas, como já visto anteriormente, temos que lembrar que eles são poderosos e isso significa, entre outros métodos, controlar mídia, religião e redes sociais. Todos já ouviram falar de personagens como Silas Malafaia (religião) ou como grandes empresas (big techs) controlam o algoritmo, ou seja o que você vê quando rola o feed de Instagram.

Para concluir de forma bem clara como a população pode ser manipulada, eu proponho uma leitura paralela: a parábola do bom samaritano, presente no Evangelho de São Lucas capítulo 10, versículo 25 ao 37. Qualquer pessoa sabe que os samaritanos eram demonizados pelo povo escolhido de Deus. Os hebreus tinham grande aversão e preconceito pelos samaritanos, os consideravam indignos e impuros, mas os próprios hebreus, representados na parábola pelo sacerdote e levita, que eram conhecedores da lei de Deus, não ajudaram um homem que estava em vulnerabilidade após ser covardemente agredido e assaltado, e o ignoraram. A ajuda veio de quem menos se esperava, do samaritano impuro e alvo de preconceito. Os conhecedores do divino estavam tão cegos pelo preconceito que não foram capazes de realizar uma boa ação. Seria imprudente traçar um paralelo com a realidade atual? Quem hoje se intitula cristão e filhos dignos de Deus, mas estão cegos pelo preconceito e não conseguem enxergar quem precisa de ajuda?

O texto que escrevo não tem a audácia de convencer ninguém. Nem mesmo Jesus conseguiu convencer os fariseus depois de tanto apontar a sua hipocrisia e, como resultado, morreu na Cruz como um condenado político. Ele quis que a sociedade da época evoluísse e que a maneira política de relações não fosse embasada pelo poder, mas pelo bem comum a todos. Não sou eu quem conclui isso: essa ideia está na própria bíblia e é o que irei escrever no próximo texto. Já os fariseus, que mataram Jesus acreditando que também matariam as suas ideias, assim fizeram por que eles queriam conservar o que já estava disposto, achavam um absurdo as novas formas de pensar que Cristo convidava. Escrevo sim esse texto para me aliviar de tantos pensamentos e deixar registrado que há pessoas que querem sim evoluir.

Enfim, termino questionando o que você leitor que chegou até essa altura do texto quer para a sua vida: ser um bebê que conserva o poder do outro e, por consequência, o seu lugar de bebê, ou evoluir como sujeito que é capaz de ter autonomia?

 

Rullyan Henrique Januth Oliveira

 

 

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