Estive em conversa com um amigo que se considera conservador. Pensei no poder dessa palavra e postura. O que significa conservar? Dando um Google rápido encontrei: “Conservar significa manter algo em bom estado, evitar que se estrague, deteriorasse ou acabe, e proteger sua integridade ao longo do tempo.” Ao entrar em contato com esse significado, soltei um suspiro de lamento ao pensar no uso dessa palavra por parte da política brasileira e mundial. Afinal o que querem eles conservar?
Assim, comecei a
pensar e analisar. Segundo a psicanálise, o estado de maior conforto
experimentado pelo corpo (carne) é justamente quando ainda se é um feto em
gestação no ventre da pessoa que gesta. Bem, lá parece não faltar nada, não
precisa trabalhar, o alimento vem até o feto literalmente mastigado e digerido,
é quentinho e protegido. Imagine o paradoxo: Se é tão confortável, para que
nascer? Não seria mais viável conservar essa posição? Em contrapartida, se não
é colocado para fora pela via do parto, não nasce um sujeito. E o que aguarda
esse sujeito é uma vida de constante evolução. Sabe Pokémon? Pois bem,
precisa-se aprender a solicitar o que se quer, a andar em meio a tropeços e
quedas, a entender que o mundo não gira ao seu redor. Depois vem o ambiente
escolar, o trabalho, os amores românticos, a construção de uma vida minimamente
autônoma e, entre tantas outras etapas, uma coisa não se pode negar: todas elas
envolvem angústias, sendo que todas as angústias levam a uma evolução subjetiva.
Afinal, ninguém quer um Charmander inofensivo, mas um Charizard brutal. A metáfora que me interessa
aqui não é a
de um retorno literal ao ventre,
mas a da permanência
em uma posição de proteção
na qual não precisamos
enfrentar as exigências e as
incertezas que acompanham a vida.
Em conclusão, evoluir
envolve angústia. Porém, deve haver alguma saudade natural daquele lugar de
feto. Até porque, lá não existiam as angústias de ser sujeito, e, convenhamos, na
maioria das vezes e por um grande número de pessoas, angústia é vista como
sofrimento.
Voltando à ideia para
o momento político em que estamos: grande parte do grupo dos conservadores parece
enxergar a vida solicitando evolução e, sabendo que evolução envolve angústia, prefere
voltar a um estado fetal onde não existe angústia. Dá até para aceitar a lógica
aqui presente e passar um pano, para eles, de leve, é claro. Vamos concordar
que o Charmander possui seus fãs. Mas, o pequeno grupo que completa a equipe
dos conservadores, de conservadores não tem nada. E eles são cruéis nesse
sentido. Aproveitam daquele sofrimento vinculado às angústias do grupo maior e
o manipula em seu favor. Aqui o que eles querem conservar é algo diferente e
muito mais cruel.
Vamos aos fatos: todo
mundo estudou, em seu tempo escolar, que quem se mantém no poder era quem tinha
mais força: exército mais forte, armas mais fortes, persuasão mais forte. Ou
seja, dominavam pela força o restante da população, se não pela guerra, pela
persuasão. E quem dominava o exército, as armas ou a persuasão? Uma pessoa
(rei, imperador, ou alguém equivalente) e o seu pequeno grupo (aqueles que
faziam parte da monarquia e se beneficiavam dela). Hoje não temos mais no Brasil
reis e monarquia. Todavia, temos aqueles que desde aquela época estão no poder,
não mais como reis, mas como os super ricos. E é justamente aqui que entra a
crueldade.
O que eles querem
conservar são o dinheiro que possuem e o poder que vem dessa riqueza. Já parou
para se perguntar quem foi que decidiu que aquela grande fazenda daquela família
tradicional de sua cidade pertence a ela? Com certeza você já ouviu histórias
de antepassados que invadiram terras, mataram ou expulsaram quem ali vivia e
passaram a dizer, essa terra é minha! Quem decidiu, decidiu na força, na arma,
na violência.
Não quero dizer que a
mesma pessoa que expulsou quem vivia naquela terra passou a terra para os seus
filhos e netos e assim por diante, e a mantém até hoje. Pode até ser que
mantenha. Quero sim dizer que a riqueza produzida por aquela terra permanece
nas mãos desse pequeno grupo até hoje.
Mas, para a nossa
alegria, uma coisa evoluiu: os direitos sociais! Hoje temos saúde gratuita,
leis que protegem o trabalhador, proteção financeira para idosos e pessoas com
deficiência e tantos outros. Procuramos dar igualdade de acesso à educação a
todos aqueles que antigamente eram privados desse privilégio. Procuramos
estabelecer a ideia de que toda a forma de amor é válida, com tantas procuras
de evolução, vamos aprendendo a andar, assim como o bebê no início do texto.
Mas sabe quem não
quer que a população em sua maioria ande com as próprias pernas? Pois é, aquele
pequeno grupo que tem o poder em suas mãos. Ou seja, eles querem CONSERVAR o
poder só para eles.
Para entender esse
processo de conservar, vamos continuar pensando no bebê que está aprendendo a
andar? É claro que no processo de aprendizagem ele irá ter medo, cair, se
machucar e procurar alguém que o socorra. E, usando uma máscara de benfeitor,
vêm aqueles que querem conservar o poder em suas mãos e dizem: “Está vendo! Não
mandei andar! Ande que cairá. Continue andando para longe de mim, que irá se
perder!” Diante do medo dos primeiros passos, é justificável buscar alguém que
o proteja, vemos isso nos bebês cotidianamente. Mas um bom responsável sabe que
não pode conservar o bebê naquele lugar. Ele precisa aprender a seguir para
além daquele que o cuida. Então, esse ser cuidador se apressa para facilitar
esse processo, compra andador, coloca sapatinho, dá a mão, até deixa cair de
vez em quando. Mas fica presente até aquele que está aprendendo a andar,
conclua a sua tarefa e siga por conta própria. Ele não livra o bebê da angústia
e, sim, contribui para que com angústia e medo a criança siga!
Chega de metáforas,
vamos ver como isso funciona na prática.
Na prática, vemos
aqueles que estão no poder alimentando o medo das pessoas para que eles não
ousem ir atrás de seus direitos. Na política, essa lógica
aparece quando o medo
deixa de ser algo
a ser acolhido e passa
a ser um instrumento
de controle. Em vez de
ajudar as pessoas a enfrentar
as incertezas implicadas na conquista de direitos,
determinados discursos apresentam qualquer mudança como uma ameaça.
Como?
Partamos da ideia de como o discurso religioso é usado para demonizar aqueles
que ousam questionar o poder. Até amar se tornou do demônio. Se alguém propuser
ideias como “as mulheres têm que ter os seus direitos garantidos, nenhum a menos,
não podendo ser submissas à vontade dos homens”, é do demônio. Se algum padre
católico advertir a população sobre o cuidado com os mais pobres e vulneráveis,
é ridicularizado e chamado de louco esquerdista. Se existir algum movimento que
sugira melhor acesso à habitação, “cuidado, esse movimento é perigoso!”.
Percebamos que tudo o que é proposto para a sociedade evoluir, ofertando
direitos que garantam o mínimo de igualdade para toda a população, é propagado o
ódio contra aquele movimento e contra quem fala do movimento de direitos
iguais.
Um exemplo clássico:
bolsa família. Existem muitos ataques contra os beneficiários do programa bolsa
família e contra essa política pública de distribuição de renda. Mas, ao mesmo
tempo, não vemos os mesmos ataques, com o mesmo ódio, aos grandes empresários
que sonegam impostos. É aqui que vem a pergunta: Se você tem raiva do programa bolsa
família e de quem o recebe, mas não tem raiva, na mesma medida, dos grandes
empresários que sonegam impostos, sinto lhe informar, você foi capturado por um
discurso que te colocou uma viseira de burro para olhar apenas uma coisa e não
se irritar com o que de fato é ruim para o Brasil. Até por que, a despesa
pública do programa Bolsa Família para os cofres federais em 2025 foi de 158 bilhões.
Já o rombo das Americanas aos cofres públicos foi de 43 bilhões, o do Banco Máster
foi de outros 60 bilhões. O dono da Havan deve de impostos e INSS
aproximadamente 168 milhões. Sabe qual a diferença? O bolsa família divide
legalmente todos os 158 bilhoes em mais de 18 milhões de famílias. Já os outros
casos citados ficam na mão de apenas uma família. Qual de fato é o mais
revoltante?
Sei que alguns
leitores podem discordar do que estará exposto a seguir, mas não tenho medo de
dizer que, é nessa medida que demonizaram a pessoa de Luiz Inácio Lula da Silva,
uma vez que ele olhou para a população, tratada como bebê incapaz e disse,
vamos fazer com que esse povo tenha o direito de andar. Contudo aqueles que já
usufruíam desse direito começam a perceber que tem mais gente andando no
caminho. Não querem dividir, então, qual a saída? Usar o plano de demonizar também
o Lula e disseminar o antipetismo. Resultado: aqueles que se beneficiaram ou se
beneficiariam do direito, se levantam contra ele. Quem está no poder usa
justamente o medo presente na população de onde a evolução pode levar, (pois na
fantasia geral, sair de um lugar confortável para encarar um desconhecido pode
sim causar receios), e assim os ricos e poderosos usam essa estratégia como
arma para manipular e persuadir.
É possível que surjam
perguntas do tipo: mas como tais poderosos conseguem manipular tão facilmente
grande parte da população? Além de saber persuadir usando de instrumentos que
atingem justamente as vulnerabilidades psíquicas, como já visto anteriormente,
temos que lembrar que eles são poderosos e isso significa, entre outros
métodos, controlar mídia, religião e redes sociais. Todos já ouviram falar de
personagens como Silas Malafaia (religião) ou como grandes empresas (big techs)
controlam o algoritmo, ou seja o que você vê quando rola o feed de Instagram.
Para concluir de
forma bem clara como a população pode ser manipulada, eu proponho uma leitura
paralela: a parábola do bom samaritano, presente no Evangelho de São Lucas
capítulo 10, versículo 25 ao 37. Qualquer pessoa sabe que os samaritanos eram
demonizados pelo povo escolhido de Deus. Os hebreus tinham grande aversão e
preconceito pelos samaritanos, os consideravam indignos e impuros, mas os
próprios hebreus, representados na parábola pelo sacerdote e levita, que eram
conhecedores da lei de Deus, não ajudaram um homem que estava em
vulnerabilidade após ser covardemente agredido e assaltado, e o ignoraram. A
ajuda veio de quem menos se esperava, do samaritano impuro e alvo de
preconceito. Os conhecedores do divino estavam tão cegos pelo preconceito que
não foram capazes de realizar uma boa ação. Seria imprudente traçar um paralelo
com a realidade atual? Quem hoje se intitula cristão e filhos dignos de Deus,
mas estão cegos pelo preconceito e não conseguem enxergar quem precisa de
ajuda?
O texto que escrevo
não tem a audácia de convencer ninguém. Nem mesmo Jesus conseguiu convencer os fariseus
depois de tanto apontar a sua hipocrisia e, como resultado, morreu na Cruz como
um condenado político. Ele quis que a sociedade da época evoluísse e que a
maneira política de relações não fosse embasada pelo poder, mas pelo bem comum
a todos. Não sou eu quem conclui isso: essa ideia está na própria bíblia e é o
que irei escrever no próximo texto. Já os fariseus, que mataram Jesus
acreditando que também matariam as suas ideias, assim fizeram por que eles
queriam conservar o que já estava disposto, achavam um absurdo as novas formas
de pensar que Cristo convidava. Escrevo sim esse texto para me aliviar de
tantos pensamentos e deixar registrado que há pessoas que querem sim evoluir.
Enfim, termino
questionando o que você leitor que chegou até essa altura do texto quer para a
sua vida: ser um bebê que conserva o poder do outro e, por consequência, o seu
lugar de bebê, ou evoluir como sujeito que é capaz de ter autonomia?
Rullyan
Henrique Januth Oliveira
